Da cidade da sensibilidade à casa do imaginário
Carlos Antônio Leite Brandão
Em Da cidade da sensibilidade à casa do imaginário, professor da Escola de Arquitetura da UFMG aproxima teoria, memória e experiência pessoal para refletir sobre o que ainda resta de humano em uma época dominada por imagens, algoritmos e informações.
Há livros que procuram explicar o mundo. Outros preferem percorrê-lo. Da cidade da sensibilidade à casa do imaginário, novo livro de Carlos Antônio Leite Brandão, professor titular da Escola de Arquitetura da UFMG, nasce desse segundo impulso. Publicada pela Editora UFMG, a obra reúne dois ensaios escritos em momentos distintos – o primeiro, sobre a Sensibilidade, elaborado em 2023; o segundo, sobre o Imaginário, escrito dois anos depois – e propõe uma investigação que atravessa arquitetura, cidade, arte, filosofia, história e literatura, mas que encontra seu ponto de partida, e de chegada, na experiência de quem escreve.
O lançamento acontecerá no dia 24 de setembro, das 18h30 às 20h30, na Quixote Livraria e Café, em Belo Horizonte.
Inspirado nos Cahiers de Paul Valéry, Brandão constrói uma reflexão sobre a maneira como Sensibilidade e Imaginário se inscrevem no pensamento, nos afetos, nos objetos, na casa e nas cidades. A arquitetura, nesse percurso, deixa de ser apenas objeto de investigação acadêmica para tornar-se também uma forma de experimentar o mundo e de compreender aquilo que nos constitui.
A escolha de reunir os dois textos em um único volume não é apenas editorial. Embora possam ser lidos separadamente, os livros compartilham uma mesma matriz teórica e se iluminam mutuamente. Ao ensaio acadêmico e filosófico o autor acrescenta aquilo que chama de “ensaio crônico”: uma escrita em que reflexão e experiência pessoal se entrelaçam.
Entre a teoria e a experiência
A singularidade da obra está justamente nesse movimento. Brandão parte de uma longa trajetória como pesquisador da arquitetura, da cidade e da história da arte, mas decide deslocar o olhar para aquilo que a experiência intelectual muitas vezes deixa à margem: as lembranças, os afetos, os lugares, os encontros, as perdas e as marcas que o mundo produz no corpo e na memória.
É uma mudança de perspectiva que o próprio autor associa a escritores como Montaigne e Proust. Em vez de separar conhecimento e experiência, o livro procura aproximá-los. Escrever torna-se, assim, uma forma de investigar simultaneamente o mundo e a si mesmo.
A palavra “escavar” aparece como uma das imagens centrais dessa escrita. Para Brandão, escrever é lavrar a própria experiência, retirar dela aquilo que permanece soterrado e transformar essa matéria em conhecimento. A caderneta que carrega consigo funciona como uma espécie de instrumento de prospecção: ao registrar o que vê e sente, o autor também se investiga.
Essa dimensão autobiográfica, entretanto, não transforma o livro em uma narrativa de si. Ao contrário: a experiência individual é utilizada como passagem para questões mais amplas. Como percebemos os lugares? De que modo a memória interfere naquilo que vemos? Como os espaços habitados participam da constituição de nossa subjetividade? O que acontece com nossa capacidade de sentir e imaginar quando somos permanentemente atravessados por imagens e informações?
Uma época que ameaça a Sensibilidade
É nesse ponto que a reflexão do livro adquire uma dimensão crítica. Brandão identifica no presente uma espécie de “barbárie hi-tech e soft”, produzida pela presença contínua de algoritmos, imagens e informações que disputam nossa atenção e moldam nossa percepção.
Para o autor, Sensibilidade e Imaginário são territórios que precisam ser recuperados. Não se trata de uma rejeição à tecnologia, mas de uma advertência sobre a possibilidade de o humano perder progressivamente a capacidade de perceber, imaginar, recordar e atribuir sentido à própria experiência.
A questão ganha força porque não é apresentada apenas como um problema abstrato. O autor procura experimentá-la no contato com lugares concretos. O Memorial de Brumadinho e a Praça da Independência, em Belo Horizonte, por exemplo, tornam-se espaços de investigação: são lugares observados a partir daquilo que provocam no corpo, na memória e na Sensibilidade.
A arquitetura aparece, então, em uma dimensão que ultrapassa sua materialidade. Uma praça, uma casa ou um edifício não são apenas formas organizadas no espaço. Podem despertar lembranças, produzir afetos, provocar desconforto, acolher, ferir ou transformar a maneira como alguém se relaciona com o mundo.
Da cidade à casa
O percurso sugerido pelo título também indica um movimento de aproximação. A “Cidade da Sensibilidade” conduz à “Casa do Imaginário”; do espaço coletivo ao espaço íntimo, da cidade à casa, do mundo exterior à interioridade.
Nesse caminho, a casa deixa de ser apenas abrigo físico. É também território da memória e da imaginação, lugar onde experiências, objetos, afetos e lembranças se acumulam. Ao propor que o leitor investigue a própria casa e os lugares que percorreu, Brandão desloca a pesquisa para além das páginas do livro.
A leitura passa a ser, desse modo, um convite à observação. O quarto da infância, uma rua, uma praça, uma paisagem ou um objeto cotidiano podem conter uma história que ainda não foi percebida. O livro sugere que olhar novamente para esses espaços pode ser também uma forma de olhar novamente para si.
Um arquiteto diante da própria trajetória
A proposta ganha especial densidade quando considerada à luz da trajetória do autor. Arquiteto, mestre e doutor em Filosofia pela UFMG, professor titular da Escola de Arquitetura da Universidade e pesquisador do CNPq, Carlos Antônio Leite Brandão dedica-se à história, à teoria e à filosofia da arquitetura e da arte, com ênfase no Renascimento.
Sua produção inclui livros como Genealogia da cidade, vencedor do Prêmio Jabuti de 2024, Arquitetura, humanismo e República: a atualidade do De re aedificatoria, Quid Tum? O combate da arte em Leon Battista Alberti e A formação do homem moderno vista através da arquitetura, todos publicados pela Editora UFMG.
Em Da cidade da sensibilidade à casa do imaginário, entretanto, o pesquisador parece colocar sua própria trajetória sob investigação. O conhecimento acumulado ao longo de décadas não desaparece; é colocado em diálogo com a memória, os afetos e as experiências vividas.
É nesse encontro entre o professor e o homem, entre a teoria e a experiência, entre a arquitetura e a literatura, que surge o que Brandão chama de “ensaio crônico”. Uma escrita que não pretende oferecer respostas definitivas, mas abrir espaço para que o leitor também se interrogue.
No fundo, o livro propõe uma pergunta que ultrapassa seus dois conceitos centrais: o que fazemos com aquilo que sentimos, imaginamos e lembramos em um mundo que parece cada vez mais empenhado em sentir, imaginar e lembrar por nós?
A resposta, para Brandão, talvez esteja na própria experiência de escrever – e na possibilidade de o leitor fazer o mesmo movimento. Percorrer novamente os lugares que o constituíram, observar os objetos que o cercam, recuperar memórias e reconhecer os afetos que ainda permanecem neles.
A Sensibilidade, sugere o autor, não é um território dado de uma vez por todas. É algo que precisa ser cultivado, investigado e, sobretudo, preservado. “A sua Sensibilidade é sua, e de mais ninguém”, escreve ao final do prólogo. E é justamente essa experiência singular, entregue ao leitor “de corpo e alma”, que sustenta a aposta central do livro: recuperar, no interior da vida cotidiana, aquilo que ainda pode nos devolver ao humano.
SERVIÇO
Lançamento de Da cidade da sensibilidade à casa do imaginário
Autor: Carlos Antônio Leite Brandão
Data: 24 de setembro de 2026 (quinta-feira)
Horário: das 18h30 às 20h30
Local: Quixote Livraria e Café
Endereço: Rua Fernandes Tourinho, 274, Savassi – Belo Horizonte (MG)
Telefone: (31) 3227-3077
Editora: Editora UFMG
ISBN: 978-65-5858-199-4